ÀO
S O M B R AO D OO
V E R Ã O
Era por agosto,
há muitos anos.
O cheiro da sombra
das oliveiras subia ao ar. Vista de baixo
aquela folhagem parecia um mar,
um mar de vidro,
quando o sol oblíquo lhe caía em cima.
Eram dois cães raivosos, eram duas
cobras enroscadas, eram dois rapazes
rolando pelo chão: lutavam,
mordiam-se, abraçavam-se.
Deviam amar-se muito, para tão mal
se tratarem. Um sol verde
lambia agora a terra.
Eram muito novos, há muitos anos,
no pino do verão, debaixo duma oliveira,
onde só as cigarras monotonamente
consentiam.
Foz do Douro, 6.1.98