<
LUÍS QUINTAIS
POESIA
N.º 33
<

5

Uma jarra de Murano alaranjada,
cheia de veios que julgaste de rios
longilínios, profundos, revoltos;
uma caneta azul, a sempre perfeita
cor da imaginação que te sonha,
a dos céus de Timbuctu
que anotaste no teu antigo
caderno, o primeiro;
o resto de tronco cortado,
enraizado, como treva
adentrando-se no passado,
o resto de tronco onde
o teu irmão se sentou, e que agora
sugere, por centro, a clareira no parque
perto da casa onde viveram, onde viveste.

A memória consente a irrealidade
das coisas mortas, resgata a serena irrealidade
_____das coisas mortas.

 
Prémio Luís Miguel Nava
Prémio Luís Miguel Nava
Relâmpago n.º 33
<