Virá um dia em que, mesmo descomposto,
se levante como um vento a memória de mim
e eu comece a crescer, e cresça até um ponto
em que a minha matança já não possa ser
olhada de frente pelo que me matou.
Pois todas as mortes, cutelo, são vingadas
pela própria injustiça, violência e fé
com que se perpetraram.
Da minha garganta que tão facilmente golpeaste
como quem abre dedo a dedo a mão fechada
de uma criança que nela guarda um furto,
falarão mais tarde livros, mas não de ti, cutelo,
e será a minha efígie que os pintores pintarão,
e não a tua, cutelo, meia-lua
de aço assassino.