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Helder
Moura Pereira
 
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Terás, enfim, perdido aquele barco,
aquele comboio, aquele avião
que vem num cromo da vida
como sinal de uma outra vida
possível. É o dilema de apanhar
aquele avião, ir de partida, ou
ficar, na mesma esplanada, na mesma
chegada, a ver aviões. Sou
dos que ficam, parados, sem mexer
um único músculo, mais vazio
do que um balão rebentado.

Na minha mão de repente apareceu
uma pistola. E uma só bala. Devem
querer que jogue à roleta russa.
Pois bem, aceito. Fez-se à minha volta
um silêncio excitante. Quando carreguei
no gatilho um pano caiu da ponta
da pistola, eu afinal era uma personagem
de um filme cómico. Perguntava a frase
no pano Achas que mereces a liberdade
de te matares? Voltei a casa
muito pensativo, adiei por uns bons anos
a hipótese de me atirar da ponte
a baixo, de me atirar para debaixo
de um comboio, de ficar surdo
com o barulhos dos aviões, de ficar
com saudades de partidas e chegadas
de comboios. Fizeram pouco de mim,
era uma certa aplicação da justiça.

Pediram-me para colocar uma das mãos
na consciência e a que sobrasse
sobre o coração e desenhar depois
num papel uma árvore. Mas saiu-me
um frasco, com um embrião a abrir,
a subir, a saltar já quase para fora
do frasco, figura igual à que eu fui,
tão belo aos olhos da mãe, tão perfeito,
imaculado, colorido e único.

 
Helder Moura Pereira
Se as Coisas não Fossem o Que São, Assírio & Alvim, 2010
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