G E L U R A
S
(sequência
de João Garcia)
1
O crítico
não conseguia compreender
que o autor continuasse a suster o fôlego
mesmo depois de, pela palavra,
ter iniciado a tão depressiva descida
para as planícies íngremes do sentido.
Ah, a poesia
Fora sem máscara
que se decidira a escalar a colina
mas agora tinha dificuldade
em reconhecer na paisagem
a visão que o fizera prosseguir
no puro objectivo da subida.
Cansado de imagens da montanha,
procurou uma poesia mais prática,
de acordo com o rigor dos instrumentos
que guardara da viagem na estufa
do abrigo. A poesia não era
a sua casa mas as construções
que fazia com as palavras,
em noites de maior tempestade,
serviam-lhe de mobília
onde se podia restabelecer
das agruras da subida.
Pode esse sentimento
substituir-se ao da vida
que a poesia arrasta
com estrondo para as sombras
consternadas do precipício?
Não sabia. E no entanto,
uma paisagem de ombros
era suficiente, na sua brancura,
para nos arrancar das brumas
que nos pareciam interditar
para sempre o livre acesso
aos declives puros da superfície.
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