Falha o sopro na flauta de cana
e finca os cascos fendidos
nos remansos da lagoa anaeróbica,
cujos lodos bacterianos, degradados,
o ar incensam de gás sulfídrico
pondo em fuga rãs saltadoras
com estranhas mutações
e pentâmetras pernas.
Na ETAR, as grades decantadoras
são cadafalso que se abre sob a cascata
de águas residuais
e as deixa a estrebuchar no leito espúmeo
de óleos, adubos, solventes
e humanais detritos
por algas e micróbios digeridos com fartura.
São os seus últimos dias.
Podeis vê-lo sem rumo e sem tino
a eludir o sol com o prémio da cabeça.
À noite adormece na barraca mais esconsa,
erguida com despojos arcádicos
de vidas sentenciadas à felicidade
e de carreiras sagradas no triunfo e na dominação,
ou recostado na rede de uma estação pluviométrica
sonha com o espondeu das águas,
o troqueu dos seixos, o dáctilo
das canas, o anapesto das cigarras.
Não vem longe o dia
em que os promotores do futuro
toparão com seu rasto:
surpreendido entre as sebes a colher
as últimas amoras,
um só tiro bastará, ou nem tanto: uma paulada
(como nos coelhos se usava),
os chavelhos cortados e exibidos
na sede da imobiliária,
o cadáver dançarino dissimulado no cimento fresco
que sagra o Deus do betão. |