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LAMENTO DO AGRICULTOR
NA VIA DE CINTURA INTERNA
RUI LAGE
POESIA
NO Nº31/32
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Passai, manadas com patas anti-bloqueio,
garrotes pré-tensores, olhos de xénon,
tubos de explosão gástrica,
passai enquanto enfio a cabeça na terra,
na pouca que resta mas acolhe
anémicas papoilas,
gafanhotos subnutridos
e dois renques de couves a desmaiar
na vazante do alcatrão.

Deixai-me com meus renques
de salsa, menta e hortelã.
Pássaros não os ouço,
vejo-lhes o enxame das asas
além, a romper dos teixos
sempre que buzina um camião.

Acossado por rails,
sitiado pelo asfalto viscoso
de tanto gato decalcado,
cultivo derreado o meu quintal.

Se gritasse agora
nem as toupeiras me ouviriam

(quanto mais as ordens dos anjos).

 
Relâmpago nº31/32
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